FOI PRECISO AO HOMEM MUITO TEMPO PARA SE ELEVAR ACIMA DA NATUREZA!

TODA A ARTE É CONDICIONADA PELA SUA ÉPOCA... De Ernst Fischer
















quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

SUÃO

O MEU LIVRO DE OUTUBRO


O livro escolhido neste mês é da autoria de Antunes da Silva, Alentejano nascido em Évora em 1921 e falecido nesta cidade em 1997. O autor iniciou a sua obra em 1946, com Gaimirra, uma colectânea de contos, que relatam as vivências dos trabalhadores alentejanos, gente do povo, pequenos seareiros, ganhões, malteses, assalariados sem mais qualificações do que a força do trabalho. Gente que sofre as inclemências do clima e das leis que favorecem os senhores da terra, lutando contra as injustiças, perdendo quase sempre contra todas as forças adversas.
A seguir a Gaimirra, seguem-se com o mesmo estilo as Coletâneas, Vila Adormecida, Aprendiz de Ladrão, O Amigo das Tempestades; os Romances O Alentejo é Sangue, Terra do Nosso Pão e a Fábrica, este último editado em 1979.
Suão, escrito em 1960, é o seu primeiro romance, onde nos descreve num estilo vigoroso, a planície Alentejana com os senhores da terra impondo as suas leis arbitrárias, mesquinhas e selvagens contra os trabalhadores, sejam os pequenos seareiros, sejam os assalariados, uns acorrentados às imposições de rendas insuportáveis, os outros condicionados aos salários de miséria.
O drama deste povo, submetido ao poder dos latifundiários, despojado de todos os direitos até nos seus amores é roubado e desumanamente desapossado. Aos ricos tudo é permitido, aos pobres tudo lhes é retirado.
O autor descreve-nos um Alentejo, no qual predomina o agrário, inculto e mesquinho, autoritário, rei sem coroa que abusa na exploração desenfreada, manda e castiga a seu belo prazer, minimiza o trabalho de quem o serve, porque o trabalho o enerva, pagando mal ao campaniço e ao artista, chorando os tostões que entregam a quem lhe põe no bolso a sua fortuna..
Ainda existem hoje tais senhores, aborígenes de uma elite devassa e são eles, alguns dos latifundiários insensíveis, péssimos condutores de homens, que medem por varas de porcos, armazéns de lã e barracões de cortiça a sorte do seu semelhante nas escola dos seus valores sociais, que não acreditam na ciência, porque a ciência os obriga a pensar, que pressionam e convencem as entidades governativas para que não sejam instaladas zonas fabris nos concelhos aonde residem, que vão à igreja na tentativa de negociar a dimensão dos seus desvarios, e que não aceitam, tão pouco, nenhumas opiniões, intolerantes e ceguetas, ridículos e lambões que deixam ao desbarato e ao abandono, superfícies enormes de terrenos sem qualquer cultivo.
Retrato exagerado, radical e injusto? Eu diria que passados que são cinquenta anos, após a edição deste livro, basta percorrer as mesmas terras que o autor conhecia muito bem e verificamos que os grandes agrários pouco ou nada evoluíram e que a grande maioria das herdades, estão hoje cercadas por arame, sem qualquer cultivo, abandonadas e nem a possível exploração pecuária é correctamente exercida, sem critérios e a distribuição equilibrada de acordo com a natureza dos terrenos.
Acusam os críticos e detractores deste estilo de escrever e de apresentar a sua obra, denegrindo o neo-realismo, escola que dizem ser sectária e socialmente estar ultrapassada. A grande maioria destes críticos, são acérrimos defensores do neoliberalismo, contrários a tudo que cheire a teorias socializantes, porque dizem ser contrárias à “sua democracia” e defendem com todo o ardor, todas as medidas que levem ao esquecimento das obras de todos os escritores que se atreveram a escrever sobre os conflitos sociais e sobre luta de classes que declaram inexistente.
Para obterem o sucesso completo das suas teorias, tudo fazem para relegar para o ostracismo e esquecimento, escritores como Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Fernando Namora, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, José Gomes Ferreira, Castro Soromenho, Armindo Rodrigues, João José Cochofel, Sidónio Muralha, José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Alexandre Pinheiro Torres e muitos, muitos outros.
Na minha modesta forma de entender o mundo, considero que é perfeitamente natural que quem escreve, possa escolher livremente o estilo que melhor se adapte ao seu gosto, aos seus conhecimentos e à sua sensibilidade estética. Actualmente, os grandes críticos e pensadores portugueses, são quase unânimes em considerar o neo-realismo como morto e enterrado nas catacumbas dos seus crânios fecundos e donos absolutos da verdade e do conhecimento universal. Pessoalmente, como simples leitor e como alentejano, filho de camponeses, continuo a deliciar-me com o SUÃO de Antunes da Silva e a considerar a sua obra como um testemunho de imenso valor sobre uma época que não está assim tão longe e que pelos vistos, deixou sementes que germinaram e sobrevivem como pragas funestas na paisagem alentejana.

Deixo para vós meus queridos amigos este lindo Poema, "Senhor Vento" e ao mesmo tempo uma recomendação, se ainda não leram nenhum livro deste escritor, façam-no enquanto é tempo, os "bombeiros do Fahrenheit 451" andam por aí.



Senhor Vento

Senhor Vento, ó Senhor Vento,

já não me posso conter,

veio a seca, tanto sol,

que anda por aqui a fazer?

Vá-se embora Senhor Vento,

não são horas daqui estar,

não há trevo nem há água

para o gado apascentar.

Tudo seco, Senhor Vento,

ai que morte, que morrer,

não há suco nem há seiva,

cinco meses sem chover...

Se cá ficar, Senhor Vento,

não tempera, só destapa

os horizontes de nuvens,

não há chuva neste mapa.

Tape a chaga, Senhor Vento,

siga siga para o mar,

já lhe disse, vá-se embora,

não são horas daqui estar!

Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,

se andar aqui mais um dia,

gira gira, fora fora,

mande a chuva, não se ria.

Obrigado, Senhor Vento,

Empurre a nuvens, agora,

isso mesmo, traga as águas!

De contente, a terra chora.

Antunes da Silva

CV-Novembro 2009


Martins Raposo

1 comentário:

  1. Boa escolha. Antunes da Silva é um dos escritores deste nosso Alentejo cuja obra literária faz parte dos meus afectos.
    Dele para além do "Suão", gosto muito do "Terra do Nosso Pão" e do "Alentejo é Sangue".
    Um abraço

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